O governo Dilma diante das greves
- From: Hegel <lulista-sim@xxxxxxxxxx>
- Date: Thu, 7 Jun 2012 06:31:49 -0700 (PDT)
O governo Dilma diante das greves
Por Maurício Caleiro, no blog Cinema & Outras Artes:
Vive-se um momento contraditório no país: ao mesmo tempo em que o
governo mantém altos índices de popularidade e a estabilidade
econômica alcançada em meio à mais grave crise do capitalismo desde
1929, graves problemas na Educação e na Saúde vêm a público, no bojo
da insatisfação de médicos e professores. A greve destes atinge 20
dias, tem número de adesões crescente (já são 51 instituições paradas)
e permanece sem perspectiva de solução. Concomitantemente, ocorrem
dezenas de greves de professores estaduais e municipais.
Agora a situação se deteriora ainda mais: desde ontem, quando o
ministro Aloizio Mercadante (Educação) chamou os representantes
docentes à mesa de negociação mas, invocando as incertezas do cenário
econômico internacional, não apresentou proposta, servidores públicos
de 31 categorias profissionais, que protocolaram sua pauta de
reivindicações no longínquo janeiro, decidiram aderir à paralisação
até o próximo dia 18, como forma de protesto, após uma dezena de
reuniões infrutíferas com o governo.
Não obstante a gravidade da situação, tal cenário quase não tem
atraído as atenções da mídia corporativa, cuja orientação neoliberal
inclui, naturalmente, um desprezo acentuado pelo funcionalismo
público. Só abre eventuais exceções quando – como ontem, no MEC - há
quebra-quebra e a possibilidade sempre excitante de incriminar os
movimentos sociais. Para muito além desses interesses de fundo, porém,
tal comportamento se insere em um contexto histórico e político
específico que ora já pode ser entendido como demarcador de um
capítulo da história da imprensa: o seu relacionamento com os governos
federais petistas.
Mídia omissa
A mais grave crise da imprensa brasileira, tanto em termos comerciais
- face às dificuldades para competir com o conteúdo gratuito oferecido
pela internet - quanto éticos – graças à negligência de regras básicas
do bom jornalismo e à ação como partido político, que fazem com que se
encontre profundamente desacreditada - está prestes a completar uma
década, posto que deflagrada a partir da campanha eleitoral de 2002, a
qual levou Lula, pela primeira vez, à Presidência.
Muitos e graves são os efeitos deletérios ora ocasionados ao país pela
virtual ausência de um jornalismo sério que, malgrado suas ligações
com o grande capital, ao menos se esforçasse para aparentar
profissionalismo e imparcialidade, como se faz em boa parte do mundo.
Mas não: além da insistência obsessiva em reafirmar, como dogma, um
receituário neoliberal desautorizado pela história socioeconômica –
como os índices de desemprego e a grave crise vivenciados no passado
pelo Brasil e ora pelas nações do norte ocidental ilustram de forma
cabal – e da tendência a se aferrar a um conservadorismo
patrimonialista, contrário a tudo que recenda a lutas sociais – de
reforma agrária a liberdades comportamentais, de direitos sobre o
próprio corpo a greve como forma de reivindicação –, a imprensa
brasileira abusa de expedientes baixos, de manipulações grosseiras, de
armações várias, dos quais o inacreditável fuzuê em torno das
declarações de Gilmar Mendes e as evidências da CPI do Cachoeira
envolvendo a revista Veja e o crime organizado são as provas mais
recentes.
O nó da questão
Esse quadro acima descrito, que promove o esvaziamento do jornalismo
como campo de valoração e intermediação, acaba por afetar
substancialmente a circulação qualitativa da comunicação na sociedade,
a difusão de critérios valorativos à ética na política e seu
acompanhamento, o grau de consciência cívica dos cidadãos, a
constituição de narrativas histórico-políticas, entre outros temas.
Tudo isso faz com que a relação entre mídia, cidadania e democracia se
afigure, atualmente, como um ponto nodal para o avanço da democracia
no país.
Para além dessas características eminentemente negativas, talvez o
aspecto mais contraditório – e mais revelador da pouca inteligência
política que caracteriza a estratégia do conservadorismo midiático –
seja que, ao optar pela desqualificação grosseira, pelo denuncismo
seletivo e pela repetição de mantras e dados em sua maioria
inverídicos, ele deixa tanto de reconhecer méritos (a muitos
evidentes) quanto de apontar falhas e deméritos efetivos dos governos
Lula e Dilma. Isso, por sua vez, acaba por gerar um fenômeno
paradoxal, uma vicissitude crítica de consequências anestesiantes, que
merece ser examinado com maior detalhamento.
Um ano e meio de governo
Pois desse modo agindo, a parcialidade antigovernista tende, por um
lado, a tornar indistintas, do ponto de vista de seu grau de
procedência e de sua veracidade, as críticas que faz ao governo. Isso,
por outro lado, incita - nas redes sociais, sobretudo – uma resposta
contrária e em igual medida, porém pró-governista. Assim, seja pela
dificuldade de separar o joio do trigo nas críticas da mídia ao
governo, peneirando o que é procedente e o que não é, ou seja pela
impropriedade de se esperar que as respostas coletivas e de natureza
eminentemente reativa das redes sociais somem à exaltação dos méritos
o ato de botar o dedo nas feridas governistas, acaba-se por não se
desenvolver devidamente e a contento o exame de questões problemáticas
e dos pontos fracos da gestão federal – e isso, ao contrário do que
possa inicialmente aparecer, é prejudicial não só para a mídia, mas,
mais ainda, para o governo Dilma Rousseff e para o país.
E fica cada vez mais claro que o governo Dilma oferece até agora,
quase um ano e meio depois de seu início e na iminência de
ingressarmos em mais um período eleitoral, um legado contraditório,
cujos méritos diversos merecem, sem dúvida, ser reconhecidos, mas
cujos pontos indubitavelmente problemáticos não podem permanecer
eclipsados pelo paradoxo gerado pela atuação obscurantista da imprensa
neoliberal, de um lado, e, de outro, pelo otimismo muitas vezes
condescendente de seus simpatizantes, entusiastas e militante nos
blogs e redes sociais (neste sentido, é altamente simbólico que o
ápice da deterioração das relações entre governo e servidores tenha se
dado concomitantemente a um momento em que as redes sociais
fervilhavam de irônica autocongratulação, com tags como #serpetralha e
#BolsaTwitter).
Pois, desse modo, acabamos no pior dos mundos para as demandas
trabalhistas, posto que tanto o entusiasmo cego de uns quanto o
neoliberalismo dogmático de outros acaba por fazer vista grossa para
tais reivindicações – advindas, no caso, de servidores responsáveis
justamente pela aplicação das políticas sociais do Estado, na
Educação, na Saúde e para além destas.
Méritos e desacertos
Não se deve, por certo, deixar de reconhecer os méritos do atual
governo, em que se destacam, por estruturais, as políticas de
erradicação da miséria e de seguridade socioeconômica, de um lado, e a
estabilidade econômica de outro, esta notadamente por se dar em meio a
uma grande crise mundial, como já mencionado. Trata-se de um feito que
não pode ser menosprezado: a título de comparação, basta examinar as
consequências devastadoras que a crise do petróleo gerou na economia
brasileira do início dos anos 80 ou, num exemplo mais próximo e com a
economia já altamente globalizada, as três vezes em que o Brasil quase
foi à falência durante o segundo governo de Fernando Henrique devido a
crises econômicas localizadas, bem menores do que a atual, e que
legaram ao país muita carestia e desemprego.
Convém frisar ainda que, a despeito do baixo crescimento dos últimos
meses, o desempenho da economia brasileira, no governo Dilma, tem
contemplado, de forma inédita, um esforço para redução substancial dos
juros e atenção aos níveis de desemprego (que se encontram no menor
índice da série histórica), de crédito e de consumo. Destarte, não tem
sido possível, nos últimos anos, bradar a constatação antes renitente
de que “a economia vai bem, mas o país vai mal”.
Recursos há
Por outro lado, o rigor fiscal continua recebendo um tratamento
prioritário que é negado a áreas sociais fundamentais, tais como saúde
e educação. Mesmo já atingida a por si excessiva meta de superávit
primário em abril, o governo continua economizando, enquanto promove
um inaceitável corte de salários de 48 mil médicos e trata com marasmo
a greve dos professores universitários federais.
Saúde e educação são – ou deveriam ser duas áreas de máxima prioridade
para um governo alegadamente comprometido com a real promoção de
avanços sociais e democráticos. Durante toda a campanha eleitoral e em
seu discurso de posse, Dilma reiterou que a Educação seria, em suas
palavras, “prioridade número um”.
Porém o que se vê agora está muito distante de honrar esse
compromisso: o governo, embora siga promovendo um superávit primário
absurdamente alto e disponha de recursos que o permitem perdoar
dívidas milionárias das teles e continuar abdicando de impostos para
estimular compra de carros e de eletrodomésticos, se recusa a sequer
apresentar uma contraproposta às categorias profissionais em greve,
que tem sido tratadas com um descaso incompatível com um governo
popular.
Incoerência programática
Tal postura intransigente acaba por permitir lances do mais hipócrita
oportunismo, como o recente apoio do PSDB à greve. Ora, os tucanos não
têm moral para se solidarizar com quem sempre maltrataram: quando no
poder, com FHC, faltou giz e dinheiro para pagar conta de luz nas
universidades federais, que estiveram à beira do colapso (este era
mesmo o objetivo, para privatizar o ensino superior).
No entanto, se continuar a tratar as demandas de seus servidores como
os últimos itens a serem contemplados em sua agenda governamental, a
administração Dilma Rousseff estará não só facilitando o trabalho de
seus opositores – seja através de lances hipócritas como o acima
mencionado, seja por desvalorizar o setor público para gáudio do
conservadorismo – mas diminuindo a qualidade e a efetividade da ação
do Estado nas áreas de Saúde e de Educação - e, assim, afastando-se da
plataforma de um governo progressista e prejudicando o povo e o país.
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