Re: Washington declara guerra ao seu povo
- From: Dilmando <lulista-sim@xxxxxxxxxx>
- Date: Fri, 12 Aug 2011 16:09:31 -0700 (PDT)
Washington declara guerra ao seu povo
ALEJANDRO NADAL*
* Articulista do diário La Jornada do México
Em 1961 o presidente já em fim de mandato Dwight Eisenhower
pronunciou
um discurso de despedida e uma famosa advertência. Naquela ocasião
ele
previne sobre o poder desmedido do complexo militar-industrial.
Segundo um de seus mais importantes biógrafos, Geoffrey Perret, o
rascunho do discurso preparado por Eisenhower continha a frase
complexo milita-industrial-congressional para marcar o papel negativo
que desempenhava o Congresso como correia de transmissão do poder da
indústria militar. No último momento, o presidente preferiu eliminar
a
referência ao Poder Legislativo para não irritar demasiado. Hoje
Eisenhower teria deixado a referência ao Congresso no seu discurso. É
que finalmente o Congresso estadunidense declarou abertamente uma
guerra contra o povo desse país, obedecendo aos desígnios dos 5% mais
ricos de sua população. Embora, pensando bem, a guerra começou há
muito.
O fetichismo reacionário conseguiu impor como verdade a ideia de que
a
causa do descalabro fiscal nos Estados Unidos está nos programas
sociais, em especial o sistema de seguridade social. Conseguiu que o
povo estadunidense considere que aqueles que têm direito ao seguro
social sejam considerados parasitas sociais, apesar de que uma parte
importante dos serviços que recebem está coberta com as contribuições
pagas ao longo de sua vida economicamente ativa. Isso não importa: a
ideologia reacionária insiste em que os pensionistas são como
sanguessugas que consumiram mais do que podiam pagar e deixaram de
poupar para enfrentar sua velhice. Essa é a maior mentira que o povo
estadunidense acabou por aceitar.
A realidade é que o sistema de seguridade social nos Estados Unidos
sempre se manteve com superávit. O seguro social se alimenta com
recursos provenientes do imposto FICA que é pago diretamente pelos
trabalhadores norte-americanos. Se se consultam as cifras oficiais
(www.socialsecurity.gov) pode-se comprovar que entre 1984 e 2009 os
trabalhadores pagaram dois trilhões de dólares a mais ao seguro
social
e ao programa Medicare do que receberam como prestações de serviços.
Da onde provinham esses recursos? Em 1983 Reagan nomeou Greenspan
presidente de uma comissão para a reforma do seguro social. Essa
comissão recomendou um aumento do imposto na folha de pagamento que
gerou um enorme superávit. Mas esses recursos não se mantiveram no
fideicomisso especial do seguro social, mas foram desviados para o
fundo de recursos gerais. Em troca só ficaram letras de câmbio
imprestáveis do tesouro. Atenção: não são bônus do Tesouro, são
simples papéis carentes de valor.
Ou seja, o seguro social não contribui para o déficit, ao contrário
ele tem subsidiado constantemente o governo federal, e esse subsidio
tem sido superior aos dois trilhões de dólares antes mencionados. Se
o
governo não tivesse usado esses recursos teria aumentado sua dívida,
o
que teria implicado em maior carga financeira. O cálculo oficial
indica que teriam se pago outros 800 bilhões de dólares pelo peso da
dívida se o governo não tivesse usado os recursos do fundo do seguro
social.
Em pleno debate sobre o teto do endividamento, o presidente Obama
indicou que se não se chegasse a um acordo seria impossível garantir
que os cheques do seguro social fossem pagos aos beneficiários. Como
é
que não tinha dinheiro para pagar esses cheques se o seguro social
tem, em teoria, um superávit? A realidade é que esse fundo só contém
os papéis que o Tesouro norte-americano entregou ao seguro social em
troca dos recursos que captaram pelas cotizações individuais retidas
como imposto.
Em outras palavras, o superávit do fundo do seguro social foi
saqueado
para cobrir o custo de manter baixos os impostos aos ricos, para
pagar
o custo crescente das aventuras militares imperiais e, mais
recentemente, para pagar os astronômicos resgates para o setor
financeiro.
Ou seja, os recursos do seguro social foram objeto de um desfalque,
de
uma gigantesca malversação de fundos enquanto o povo dos Estados
Unidos assistia televisão e rendia homenagem a seus heróis caídos em
guerras nas “províncias” mais distantes do império. A Obama tocou a
explosão desta bomba de tempo semeada em 1983. Em lugar de denunciá-
la, preferiu abraçá-la. A reação no congresso não titubeou e
aproveitou bem a oportunidade para começar a desmantelar o seguro
social. É uma forma de enterrar o problema.
Dizem que as guerras têm a vantagem de tirar as máscaras. Assim se
conhece ao inimigo, porque na batalha o que importa são as ações, não
as palavras. Agora o saque do século ficou a descoberto.
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