Che e as calúnias de "Veja"



Che e as calúnias de "Veja"

Muito já foi dito sobre a tentativa de "Veja" de deformar a figura de
Ernesto Che Guevara, bem de acordo com o molde da cabeça dos seus
donos e da cloaca que é o cérebro de seus redatores. Além de inútil, é
de uma estupidez abissal. Nada que essas pulgas façam pode alterar a
estatura de titã que já passou definitivamente para a História.

Porém, há algo ainda a ser dito sobre a manipulação e a mentira.

FONTES

Quais são as fontes de "Veja"? Dois assassinos do Che. Os dois com o
estigma queimando na pele, e fazendo qualquer negócio para apagá-lo.
Por isso, atribuem ao Che o seu próprio estigma de assassinos e
covardes. O que também não vai resolver o problema, mas, se vender a
mãe resolvesse o problema, não há dúvida de que a venderiam, até
porque a mercadoria não deve valer grande coisa.

Um deles, Gary Prado, na época um pau mandado da CIA dentro do
exército boliviano, escreveu cinco livros para mostrar que o Che era o
assassino, e ele, que assassinou o Che, era um santo e patriota. Até
entrou num partido supostamente de esquerda e supostamente de passado
guerrilheiro, o MIR. Hoje numa cadeira de rodas, devido a um tiro que
recebeu num golpe de Estado, ele jura que é de esquerda desde
criancinha - e não estamos brincando: foi exatamente o que disse numa
entrevista à BBC.

Seu partido, o MIR, fora os "supostamente" já mencionados, era, na
verdade, uma pasta escancaradamente neoliberal, entreguista e
corrupta. Foi esteio de Hugo Banzer - o assassino do presidente
general Juan José Torres e entusiasta da CIA no Plano Condor. Depois,
o MIR passou a apoiar Sanchez de Losada, um capacho que falava
espanhol com sotaque de Boston e queria privatizar até a água. Por
isso, durante a revolta popular contra Losada, as sedes do MIR foram
dos primeiros prédios a serem tomados pela população enfurecida. Em
2006, sem voto, sem militantes, e sem poder mais roubar o Estado, o
MIR se dissolveu. Restou a Gary Prado apenas as páginas da "Veja".

A outra fonte é ainda mais isenta: um esbirro do quarto escalão da
CIA, Felix Rodriguez.

Rodriguez foi o capanga que George Bush, pai, encarregou do tráfico de
cocaína na operação Irã-contras (um comparsa de Rodriguez, Gerald
Latchinian, foi preso em outubro de 1984 pela polícia americana com um
carregamento de US$ 10,3 milhões em cocaína, comprada com dinheiro da
CIA); antes, havia sido parceiro do terrorista Posada Carriles nos
atentados à população civil cubana. Sobrinho do ministro de Obras
Públicas (e que obras!) da ditadura Fulgencio Batista, depois da
revolução cubana Rodriguez foi cabecilha dos torturadores de Rafael
Trujillo, na República Dominicana; em 1960, esteve na "Operação 40",
da CIA - atentados terroristas em Cuba - e foi instrutor da "brigada
2506" - os vermes da Baía dos Porcos; na Bolívia, esse gangster deu a
ordem para o assassinato do Che; em seguida, foi um dos carrascos da
Operação Phoenix, no Vietnã (70.000 a 100.000 assassinatos - em 1974,
a CIA admitiu 26.369 assassinatos de "não combatentes", isto é, civis,
ao Congresso dos EUA) e da Operação Condor, na América Latina; um dos
"encanadores" de Nixon, naquilo que acabaria redundando no escândalo
de Watergate; e torturador reconhecido pela própria Justiça de Miami
(decisão do juiz Neale Foster, junho de 2004, ao não aceitar seu
depoimento num caso de atentado aos direitos humanos).

Essa é a fonte de "Veja" - um torturador, assassino, terrorista e
traficante. E, evidentemente, um farsante. Segundo ele diz, "tentei em
vão convencer os militares bolivianos" a não assassinar o Che. Em
suma, os militares bolivianos mandavam na CIA... Mais interessante
ainda é o motivo pelo qual ele queria "poupar a vida" do Che: porque a
CIA esperava que o Che passasse para o seu lado. O Che passar para o
lado da CIA? Pois é, leitor, é isso o que o crápula diz, e a "Veja"
publica. Resta saber quem mais será que a CIA pretendeu que passasse
para o lado dela. Provavelmente, o Mao Tsé-tung, o Fidel, o Ho Chi
Min. E por que não o Stalin? Graças à "Veja", descobrimos que a CIA é
uma agência especializada em mágica & outros fenômenos sobrenaturais.
Os assassinatos, as torturas, o terrorismo e os golpes de Estado são
apenas para o pessoal passar o tempo...

CARTA

Além dessas fontes pútridas, a "Veja" usa declarações do Che, tirando-
as não apenas do contexto, mas deformando-as. Assim, uma carta para
sua primeira mulher, Hilda, em que ele diz "estou na selva cubana,
vivo e sedento de sangue", é apresentada como tendo sentido literal.
Uma imagem poética se transforma numa confissão de crime. Assim, até
Castro Alves é capaz de virar um psicopata. A manipulação está à
altura (ou à baixura, perdoem-nos o neologismo) da estupidez. Eis
alguns trechos da carta, que não traduzimos por ser de fácil
entendimento, e que descreve o desembarque e o início da guerrilha na
Sierra Maestra, assim como seus cálidos sentimentos em relação à
mulher e à filha:

"28 de Enero de 1957

"Querida vieja:

"Aquí, desde la manigua cubana, vivo y sediento de sangre escribo
estas encendidas líneas martianas. Como si realmente fuera un soldado
(sucio y harapiento estoy, por lo menos), escribo sobre un plato de
campaña con el fusil a mi lado y un nuevo aditamento entre los labios:
un tabaco. La cosa fue dura. Como sabrás, después de siete días de
estar hacinados como sardinas en el ya famoso Granma, desembarcamos en
un manglar infecto, por culpa de los prácticos, y siguieron nuestras
desventuras hasta ser sorprendidos en la también célebre Alegría y
desbandados como palomas. Me hirieron en el cuello y quedé vivo nada
más que por mi suerte gatuna, pues una bala de ametralladora dio en
una caja de balas que llevaba en el pecho y el rebote me dio en el
cuello. Caminé unos días por el monte creyéndome mal herido, pues el
golpe de la bala me había dejado un buen dolor en el pecho. De los
muchachos que conociste allí, sólo fue muerto Jimmy Hirtzel, asesinado
por entregarse. Nosotros, en un grupo en que estaban Almeida y
Ramirito, de los que conocimos, pasamos siete días de hambre y sed
terribles hasta burlar el cerco, y con ayuda de los campesinos
volvimos a agruparnos con Fidel.

"Naturalmente, la pelea no está totalmente ganada, falta mucha
batalla, pero ya se inclina a nuestro favor: cada vez lo será más.

"Ahora, hablando de ustedes, quiero saber si estás todavía en la casa
a donde escribo y cómo están todos, particularmente el 'pétalo más
profundo del amor'. A ella me le das el abrazo y beso más fuerte que
pueda competir con su armadura ósea. A los demás un abrazo y
recuerdos. Con la precipitada salida dejé las cosas en casa de Pocho,
entre ellas están las fotos tuyas y de la chiquita. Cuando escribas,
mandámelas. Podés escribir a la casa de mi tío, a nombre del Patojo.
Las cartas tardarán un poco, pero llegarán, creo".

O resto da epopéia, o leitor conhece. Não é por acaso que esses
vagabundos e débeis mentais não gostam do Che. Ainda bem.

CARLOS LOPES

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