Seqüestradores de Diniz vivem "clandestinos"



SÉRGIO DÁVILA
Enviado especial da Folha ao Canadá

Alguns crimes brasileiros nunca morrem. O seqüestro de Abilio Diniz é um
deles. O caso é daquelas histórias que dariam não só um filme, mas um
livro, um documentário e uma trilha sonora. Todos de suspense. Com pelo
menos um mistério: "E os canadenses?"

No dia 11 de dezembro de 1989, dez pessoas participaram do seqüestro do
empresário Abilio dos Santos Diniz, do Grupo Pão de Açúcar, hoje como
então uma das maiores fortunas do país. Do dia (17) em que seu cativeiro
foi estourado à libertação do último dos envolvidos, uma década
depois, o assunto não saiu da mídia. (Volta e meia, é ressuscitado,
como no lançamento da autobiografia de Diniz, em dezembro, na qual ele
menciona o ocorrido.)

Entre os dez seqüestradores havia um brasileiro e sete outros
latino-americanos diretamente ligados a movimentos guerrilheiros de
esquerda de El Salvador, da Argentina e do Chile. À época, havia grupos
também que, sob pretexto político, usavam o crime para proveito
financeiro próprio --e nunca foi provado que os dez seqüestradores não
agissem assim.

Destoava do grupo um casal de canadenses. Cabelos e olhos claros,
escondidos por óculos fundo-de-garrafa, David Robert Spencer tinha 26
anos e parecia um daqueles criadores de uma pontocom destinados a ser
bilionários. Quatro anos mais velha, mas aparentando mais, talvez pelos
cabelos mal-pintados ou pela maquiagem pesada, Christine Gwen Lamont vinha
de uma família de classe média alta dos subúrbios de Vancouver, na
costa oeste do Canadá.

O primeiro mistério era: o que os dois faziam ali? A resposta varia
conforme o indagado. Para sua defesa na época, eles eram jovens
preocupados com a desigualdade social do mundo, como tantos no Canadá e
em países europeus desenvolvidos. Ao visitar El Salvador e a Nicarágua
nos anos 80, entraram de gaiatos numa operação destinada a ajudar
financeiramente guerrilheiros de esquerda que deu no seqüestro.

Se feita para a Promotoria de então, para os juízes que cuidaram do caso
e para pelo menos três autores de livros sobre o assunto, o casal sabia
da operação e estava tão envolvido quanto os outros oito --David chegou
a dirigir a Kombi que levaria Diniz ao cativeiro, Christine seria a
responsável pelas armas da casa.

O fato é que, depois de muito vaivém jurídico, os dois foram condenados
a 28 anos de prisão, ficaram quase dez no extinto Carandiru, em São
Paulo, foram enviados para cumprir o resto da pena no Canadá, no final de
1998, num acordo entre os dois países, e saíram em liberdade condicional
menos de três meses depois.

Naquele ano, 1999, eles e os pais dela, que lideraram uma campanha e
bancaram um lobby incansável pela libertação da dupla tanto no Canadá
quanto no Brasil, deram algumas entrevistas a órgãos de imprensa dos
dois países, falaram de planos futuros, comemoraram a vitória. E
sumiram.

O segundo mistério: como dois canadenses em liberdade condicional
conseguem desaparecer no próprio país que os vigia?

Desde setembro do ano passado, a Folha tenta localizá-los, para saber
como e do que vivem hoje em dia os seqüestradores canadenses de Abilio
Diniz.

No mês passado, descobriu o esquema de "clandestinidade" que montaram e
que é muito parecido com o da época em que viviam em São Paulo --com a
imensa diferença de que agora estão dentro da lei.

Presos em condicional

No Departamento de Correções da Província da Colúmbia Britânica, em
Vancouver, responsável pelo acompanhamento de presos em condicional, não
consta o nome de David Robert Spencer nem de Christine Gwen Lamont.
"Spencer... Lamont... Nada. Aos olhos da lei, eles são tão livres quanto
eu e você", disse à Folha Dennis Finlay, chefe do setor.

Ele era a última esperança de uma busca que começara nos arquivos que
sobraram das duas penitenciárias para onde os dois foram enviados em
1998, ela em Burnaby, ele em Abottsford (um dos prédios foi demolido
desde então, assim como o paulistano Carandiru, que os "hospedou" no
Brasil), e passara pelo Comitê de Condicional --"Nada consta, nem o
endereço atual deles".

A mesma negativa resultava das consultas aos Lamont e Spencer que aparecem
nas listas telefônicas do país. A última aposta era Langley,
cidadezinha a 50 quilômetros de Vancouver, onde Christine foi criada e os
pais, Keith e Marilyn, sempre viveram.

Nada nos jornais, arquivos ou documentos públicos. Era como se o
sobrenome "Lamont" tivesse sido apagado da história, feito as fotografias
oficiais soviéticas sob Stálin. Até que uma frase solta numa ata da
reunião regular do Conselho da Cidade de Langley, realizada às 19h de 29
de maio de 2000, chama a atenção. "O sr. Mike Walker reclama que a cerca
de cedro entre sua casa e a propriedade que foi dos Lamont se encontra em
estado lamentável."

Mike Walker, com número na lista telefônica, era vizinho dos Lamont até
que eles venderam a grande casa, de três acres, com piscina e muitas
árvores, "depois daquilo tudo", conta à Folha. O terreno hoje deu lugar
a três casas.

"Sei que eles mudaram para uma cidadezinha aqui perto. A sra. Omelaniec
sabe onde é." A sra. Omelaniec "perdeu" o telefone, mas não se incomoda
em dizer o nome da cidade. É Surrey, a 20 km. A Folha descobre o
endereço e passa a tentar entrar em contato com os Lamont.

Assim que o primeiro telefonema é atendido, pela mãe, entrará em ação
um "alerta vermelho" que envolverá as duas dezenas de pessoas, amigos,
colegas e familiares com quem a reportagem conversará ou se encontrará
nos dias seguintes: ninguém fala ou sabe nada de David e Christine.

"Os dois? Não vejo há oito anos", dirá a jornalista Kim Bolan, melhor
amiga de Christine ainda hoje. "Eu tinha o e-mail dele em algum lugar, mas
não consigo achar", falará Stephen Stewart, um dos melhores amigos de
David. "Não estou autorizada a comentar esse assunto", responderá
Heather, irmã de Christine. "Aqui não tem nenhum William", gritará o
próprio pai de David, William, ao desligar o telefone.

Nomes falsos

Até que os pais de Christine resolvem abrir a porta ao repórter, depois
de várias tentativas, com a advertência de que não responderão nada.
Parecidos com os atores Henry Fonda e Rita Moreno na velhice, o
ex-cirurgião, 75, e a ex-professora de piano, "72 e meio", não respondem
mas fazem perguntas. Sobre o Brasil.

Como vai a saúde de dom Paulo Evaristo Arns, com quem tiveram muito
contato durante a luta pela libertação da filha. Se ainda há muitas
crianças de rua em São Paulo. Ainda existe a praça da Sé. Que tal anda
o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O brasileiro foi a favor ou
contra a invasão do Iraque. Se o filme "Cidade de Deus" é mesmo muito
violento.

Da conversa com eles e com outros que aceitaram falar na condição de
anonimidade, a Folha conseguiu refazer a trajetória do casal desde 1999 e
descobrir como eles vivem hoje em dia. Primeiro, não usam mais os
próprios nomes quando trabalham, mas pseudônimos desconhecidos --como na
época do seqüestro, aliás, em que eram "Modesto" e "Susana".

Depois, moram em Vancouver, numa boa casa de uma cidade que foi escolhida
em pesquisa recente como "a melhor do mundo para viver". Casaram-se em
2000, mas não têm filhos. Fizeram uma festa apenas para amigos em 6 de
maio de 2002, quando a pena de ambos foi oficialmente extinta.

Almoçam esporadicamente aos domingos na casa dos pais dela, mas fizeram
um pacto em que a palavra "seqüestro" e o nome "Abilio Diniz" estão
proibidos. Christine, 46, pinta sempre o cabelo grisalho. Bem-humorado,
David, 42, é o piadista da família e brinca com a vaidade da mulher.

Ele trabalha como roteirista de filmes na emergente indústria
cinematográfica canadense --embora ninguém revele seu nome de guerra e o
oficial não conste de nenhum dos três sindicatos de roteiristas do
Canadá, todos consultados pela Folha, nem do banco de dados eletrônico
IMDb, maior arquivo mundial do gênero.

Uma comédia sua, de alguns anos atrás, contava a história de um sujeito
que ganhou na loteria, mas viu seu bilhete ser enterrado no caixão de um
parente. Escreve textos como free-lancer para jornais locais, sempre com
outros nomes. Escreve e deleta de seu computador repetidamente um livro de
memórias há alguns anos.

Christine voltou a estudar, na mesma Universidade Simon Fraser em que
conheceu o jovem idealista no começo dos anos 80 por quem se apaixonaria
e da qual abandonou os cursos de comunicação e ciências sociais. Agora,
tenta se graduar em criminologia.

O La Quena Coffee House, na Commercial Drive, em Vancouver, onde eles
primeiro tiveram contato com membros ligados à guerrilha de El Salvador,
fechou --virou uma galeria de arte e o escritório de uma pontocom.

Desde 1999, os dois não saíram do Canadá uma única vez, apesar de
poderem legalmente desde 2002. Pretendem fazer uma viagem nos próximos
meses, talvez para a Europa. Nunca visitariam os EUA sob George W. Bush,
dizem os amigos, e o Brasil também não está nos planos imediatos.

Não que o contato deles com o país ou a turma de seqüestradores tenha
sido completamente interrompido. Uma vez, em 2000, uma pessoa presenciou
Christine conversar por correio eletrônico instantâneo com a chilena
Maria Emília Marchi, a quem ficou muito ligada --elas ficaram presas
juntas em São Paulo.

Já David freqüenta sempre o CoDevelopment Canada, também conhecido como
CoDev ou CoDesarrollo Canada, uma ONG esquerdista que ajuda sindicatos e
associações de professores da América Latina --Brasil incluído, onde a
entidade já participou do Fórum Social de Porto Alegre.

O enviado da CoDev geralmente é Stephen Stewart, que fala português
fluente. E é um dos melhores amigos de David Spencer.

--
"It is not depravity that afflicts the human race so
much as a general lack of intelligence."
­ Agnes Repplier, American writer and social critic (1858-1950)


.



Relevant Pages

  • Re: Um nome para o novo planeta...
    ... Realmente existem UFOs, mas o que eles são, da onde vem, isso ninguem ... malucas que trabalham com magnetismo e luz. ... Eu tenho uma tia que era meio maluca, foi meio hippie e uma vez me ... do qual havia estudado um UFO capturado na NASA. ...
    (soc.culture.brazil)
  • Re: Os Pioneiros do Terrorismo
    ... modo que Bush. ... Eles... saem de sua origem com o destino programado e a cada momento vão fazendo ... se você defendesse uma teoria ...
    (soc.culture.brazil)
  • CardosOnline #006
    ... ainda mais quando eu recebo ... Sim, porque eles ... Muita gente lê todo o COL, e às vezes levam até mais de uma ... Pois com os eye-candies eu tenho essa sensação. ...
    (soc.culture.brazil)
  • Re: O Pioneirismo no Terror - I
    ... Ele usou uma ... Um ponto que sempre me deixou curioso é o "caucasianismo" dos judeus ... Que por serem minoria sofriam com os cristãos a violência dos ... fosse permitido que eles estabelecessem um estado judeu. ...
    (soc.culture.brazil)
  • Pensar Enlouquece, Pense Nisto. 07/2003
    ... Creiam-me, ainda não consegui abrir todas as mensagens, uma ... conversando com Pedro Bial a respeito de seu primeiro ... atualize seu bookmark: ... No jogo da sedução, tentamos ser mais ...
    (soc.culture.brazil)